7 de abr. de 2026

Os mil significados de um fora

Estava no trabalho ainda terminando uma lâmina de apresentação quando o telefone toca. Ficou feliz e surpreso pois sabia de quem se tratava. Logo saberia a verdade do que escolhera pra si, não tinha o que contestar. Mesmo assim a sensação de plenitude tomara uma proporção perfeita dentro do seu coração calejado e não amargo. É como se as esperanças renascessem com a possibilidade de um novo amor.
Quinze minutos após o encerramento do expediente, estava dando os toques finais no trabalho de arquitetura que sua chefe, por sinal muito bonita e gentil, estava preparando para o seu trabalho de graduação.
Ao olhar o display do celular foi perguntado: você não vai atender? Respondendo que não, sabia de quem se tratava. Era um telefonema esperado por ele e esperava tambem que as espectativas que fazia desde a sexta anterior fossem correspondidas, e que tudo caminhasse bem, com tranquilidade.
Saiu educadamente, despedindo-se das pessoas da sala e quase como um esfomeado, sai correndo escada abaixo, pra que saisse logo dali, pegasse sua bicicleta e chegasse em casa pra retornar o telefonema. Até ai, tudo bem, mas estava tão ansioso que não quis tomar banho. Largou a bike num canto, mentiu pra mãe dizendo que estava indo pra casa de uma grande amiga, e finalmente no ônibus, começou sua viagem apaixonada, sua empreitada afetiva.
Milhões de pensamentos de amor ao próximo nasciam dentro dele. Não quis controlá-los, escolheu assim. Mas o instinto de auto preservação estava sempre alertando-o para se cuidar, para não se machucar.
Pensou: "Mas se eu não arriscar, viverei na redoma o resto da vida", e decidiu não se proteger da queda que sentia que iria levar em alguns instantes. Mentiu pra si mesmo consciente e foi. Alef morava numa das principais avenidas do Recife, no maior corredor de ônibus da cidade. Num apartamento espaçoso, ao lado de uma igrejinha na Dantas Barreto, conhecida como uma das ruas mais perigosas da cidade, pelos seus becos escuros e lugares com amontoados de mercadorias dos camelôs que expõem seus produtos no maior camelódromo do mundo.
Ao chegar, seu amado não estava em casa. Fora levar uma amiga na parada do ônibus, mas logo chegou. Dema, como um bom bôbo, já estava com o presente na mão, um dvd com a ultima entrevista de Clarice Lispéctor. Já conhecia um pouco os gostos literários de Alef. Dema logo sentiu uma frieza no ar. Estava certo de que o porvir seria triste e um fora inevitável iria escapulir de boca do... pretendente. Mesmo assim ficou quieto. Fumaram a maconha que Dema trouxera e viajaram.
Para Dema, o clima não era nada confortável, estava na casa do homem que amava o seu amado. Logo fez com que saissem logo dali e fossem para um lugar neutro, um bar. Não queria interferencia externa mas nem precisava. As palavras eram naturalmente veladas na boa de Alef.
Na sua loucura, Dema calou-se.
Escutava atentamente cada palavra proferida, quase nunca intervia. Até a hora em que sua paciencia esgotou e, ao enterrar sua timidez a sete palmos foi direto ao assunto: e nós? o que faremos conosco? - escutou exatamente o que esperava: não existe nós!
Agora com a cara de carvalho velho, levantava-se dos meandros de seu poço infindo. Uma equipe de emergência pre-existente, toda equipada corria para o socorro: cordas, cordas!!
O fora ainda teve alguns requintes de pervercidade. Alef dias antes de encontrar com o outro, teve um reencontro com Ivan, seu marido. Beijos, transas: eu te amo!
E Dema, com a mesma cara de sempre, pois jamais transpareceria para um rato seu estado, lamentava-se sozinho em seu mundo com sua legião de bombeiros e paramédicos internos.
Uma semana depois, ainda chegou a ligar, escutando apenas uma frase fria: to acabando de redigir o contrato da cooperativa!!
Palavras secas, mas esperar o que?
Uma pessoa que pula muro de cemitério para roubar ossos e fazer macumba não pode ser exatamente chamada de centrada, se bem que para quem vive no meio, isso é completamente normal.
O que não é normal é ficar sofrendo de paixão, essa coisa mal resolvida dentro de uma cabeça confusa, achar que uma pessoa comum seja especial.

Os mil significados de um fora

Estava no trabalho ainda terminando uma lâmina de apresentação quando o telefone toca. Ficou feliz e surpreso pois sabia de quem se tratava....