30 de set. de 2015

O GATO

No caminho que faço diariamente pra chegar ate a quadra de esportes do bairro, vi algo diferente. Tinha um gato idoso descansado em sua banha, demonstrando um olhar indiferente. Gosto muito de bichos, não tenho discriminação quanto a eles, de alguns tenho medo, de outros tenho nojo, de outros tenho pena. Mas esse gato me passou algo diferente. Tenho a impressão que muitas vezes me ficcionalizo e transformo-me imediatamente em algo ou alguém que me identifico. Aquele olhar indiferente me passou algo. Ao passar na frente desse gato, vi que ele não moveu um músculo sequer para se proteger. Ele estava cansado da vida ou estava ali pra o que viesse? Um gato qualquer, ao ver um estranho, imediatamente iria se mover. Isso é o que nós seres humanos temos como resposta ao ver um gato que nos vê.
Imediatamente me coloquei no lugar do gato e não gostei dos pensamentos posteriores. Me colocar no lugar dele significava uma apatia sem precedentes, uma completa vontade de não reagir mais. Descansar em cima das minhas banhas e correr da realidade cruel. De repente achei que aquele gato velho era mais feliz que eu. Eu que lutara pra poder dar a dignidade e conforto pra minha família, poder ter um pouco a mais de tempo pra mim, pra amar alguém, mas nada disso me importava mais. Naquele momento eu era aquele gato, por mais cruel que eu possa descreve-lo. Um gato infeliz, de calda balançando, sujo e indiferente, ao lado do lixeiro do prédio, gato, imundo.

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