No caminho que faço diariamente pra chegar ate a quadra de
esportes do bairro, vi algo diferente. Tinha um gato idoso descansado em sua
banha, demonstrando um olhar indiferente. Gosto muito de bichos, não tenho
discriminação quanto a eles, de alguns tenho medo, de outros tenho nojo, de
outros tenho pena. Mas esse gato me passou algo diferente. Tenho a impressão
que muitas vezes me ficcionalizo e transformo-me imediatamente em algo ou
alguém que me identifico. Aquele olhar indiferente me passou algo. Ao passar na
frente desse gato, vi que ele não moveu um músculo sequer para se proteger. Ele
estava cansado da vida ou estava ali pra o que viesse? Um gato qualquer, ao ver
um estranho, imediatamente iria se mover. Isso é o que nós seres humanos temos
como resposta ao ver um gato que nos vê.
Imediatamente me coloquei no lugar do gato e não gostei dos pensamentos posteriores. Me colocar no lugar dele significava uma apatia sem precedentes, uma completa vontade de não reagir mais. Descansar em cima das minhas banhas e correr da realidade cruel. De repente achei que aquele gato velho era mais feliz que eu. Eu que lutara pra poder dar a dignidade e conforto pra minha família, poder ter um pouco a mais de tempo pra mim, pra amar alguém, mas nada disso me importava mais. Naquele momento eu era aquele gato, por mais cruel que eu possa descreve-lo. Um gato infeliz, de calda balançando, sujo e indiferente, ao lado do lixeiro do prédio, gato, imundo.
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