16 de nov. de 2025

A VERDADEIRA HISTÓRIA DE D. DANADINHA

..não parecia uma velha doce, aparentava ser seca como a terra rachada de sua região, forte, dura e imbatível. Era também uma mulher pequena, de cabelos longos prateados pelo tempo, uma daquelas mulheres atarracadas que usam saia azul marinho desbotada por água sanitária e manchadas de sangue de galinha abatida.
Veio parar em Recife porque precisava de cirurgia na perna, era uma velha sozinha. Em sua cidade, Riacho Fino, era famosa por sua criação de galinhas de capoeira, galinhas gordinhas que ela carinhosamente dava nomes como Adeílda, Verbênia e Maria Chica.
Só Danadinha era danadinha, ninguém do seu grupo de velhas amigas era assim. Era a única impetuosa, que sempre estava a frente dos eventos religiosos, junto com padre Pio e todas as velhinhas de Riacho.
Quando perguntavam sobre seu marido ela sempre dizia com espanto humilde: "Sei não, oxe!"
Mas ela sabia sim, sabia que era uma pergunta de maldade retórica, pois ele tinha morrido numa dor no bucho, por viver bêbado. Seu único filho fora pra São Paulo bastante novo, foi embora com a revolta no coração de quem espera mais da vida e imagina que se alcança esse objetivo acumulando dinheiro. Ela sofreu calada o abandono do filho. Nunca vinha em Riacho, enviava cartas pra mãe porque era mais barato, e morava num quarto cheio de pulgas em Itapevi. Ele odiava Riacho Fino, a cidade espinha de peixe.
O marido era um homem grande, de mãos calejadas e cabelo crespo. Vivia no bar de Zé, tomando cachaça e apostando em rinha de galo. Só chegava bêbado e com dois tões no bolso, um saco de pão amassado e um cigarro fedorento. Assim foi desde jovem e ela aceitava ele dessa forma.
Amor? Não, nessa realidade amor é luxo, é algo fútil, que nem se imagina existir no sertão, onde existem outras prioridades. Eles tinham um companheirismo chato, que compartilhava uma caneca de café novo e depois, só sobrou o: "mulher? Cadê o cumê?" Até o dia que caiu na roça e ficou lá mesmo, junto do pé de milho seco.
Ninguém sabia, mas seu nome era Lindelmira Aparecida da Silva, conhecida como D. Danadinha porque era serelepe e sorridente. Faltava-lhe um dente na frente, mas isso não a incomodava mais, sua vaidade acabará no dia que Reginaldo nasceu.
Incomodo não é pra fortes como ela. Lutou até o último dia.
E foi lavando roupa que Danadinha quebrou a perna, estava na pedra grande na beira do Rio Fino. No movimento brusco de bater a roupa e o sabão espalhado na pedra grande, escorrega D. Lindelmira que quebra a perna perto do joelho. Com a idade que estava, todos os médico tinham medo de fazer cirurgia. Foi levada na ambulância de Riacho pra Recife, chacoalhando na estrada de areia, cheia de buracos. Cada solavanco a perna doía e ela gritava. Ainda passou dez dias sem operar, ela que lute.
Era dura, aguentava sofrer. Aquilo pra ela era nada. Não era nordestina por acaso. Ela luta. Se fosse aquelas mulheres de São Paulo, não teriam a fibra dela, aquelas dondocas que ficam na internet maquiadas, dizendo que nordestino é bicho e pode morrer, pois não vai fazer falta. Nordestino luta.
Ficou internada na Santa Casa de Recife com mais sete senhoras, cada uma com um acompanhante, menos uma magrinha com cara de gentil.
Reginaldo, o filho, soube que ela estava internada e mandou uma cuidadora pra olhar sua mãe, mas mandou uma mulher que não conhecia. Ela se importava mais com a rede social do que com o bem estar de D. Danada, só tinha olhos pra tela.
De repente, após a cirurgia tão aguardada, essa que iria aliviar seu sofrimento, mostra como age o destino e a respiração de D. Danadinha fica ofegante, nem tinha força no pescoço pra manter a cabeça em pé. Mas a moça continuava com olhos no celular. Essa pisada continuou por duas horas.
Chegou a hora da ronda das enfermeiras, foi quando a velha teve assistência. Essa volta pro ponto de apoio correndo e já volta com mais duas enfermeiras com equipamentos. Mais duas chegaram com monitor cardíaco e o desfibrilador. Lentamente tudo foi se instalando enquanto ela recebia a massagem cardíaca. O coração da danada, agora, só batia quando a enfermeira massageava. Ficaram quarenta minutos tentando fazer Lindelmira voltar, mas ela já tinha pego o bonde branco. Não precisou de biombo pra as outras senhorinhas não vissem o que estava acontecendo. Só os equipamentos ficaram a mostra e não mostravam algo promissor.
Nesse momento se realiza algo que muitos desejam, mais uma vida nordestina se esvaindo. Agora vivemos num país onde existem gays fascistas, negros racistas, pobre defendendo corrupto, enganado pelo discurso deturpado. Vivemos num país onde Flávio Migliaccio se suicidou, porque não é pais para velhos, nem para pobres, nem para aleijados.
Seja bem vindo a um país onde a mentira é a alma do negócio, onde a frase do momento é: "E daí? pra comemorar dez mil mortos. Dez mil mortos? Pois é, somente uma estatística.
D. Danadinha saiu da enfermaria numa maca de metal frio, com cobertura de aço inoxidável em formado sextavado. Ela esfregou seu miserável futuro na cara de todas as velhas, ela, cruelmente mostrou a que viemos, logo ela que tinha tanta fé.
Nesse país não é liberado morrer vendo os passarinhos, sentada na pedra debaixo da árvore do dia morno e o bucho cheio d'água. Quando isso acontece a polícia te interroga pra saber porque você não foi levado pro hospital. Você é obrigado a pagar pelo seu caixão logo após pagar a conta do hospital.

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