9 de fev. de 2021

POR VOLTA DE 200 MIL MORTOS.. E MAIS UM

Morte é uma das palavras mais fortes que conheço. Ela é formal, dura, triste, ela dá medo. A cada minuto nesse país temos mais um morto. São tantos que o ser humano tende a ler como um número, não como o ente familiar. Pra completar, a região norte está sem oxigênio, pessoas caem mortas em grande quantidade, nos deixando aquela angustia que não sai do peito. 
Perdi minha mãe no início da pandemia. Eu sei o que cada um desses familiares estão passando. E essa dor nao passa. Esse mais um sou eu.
Tentando deixar um pouco de lado essa dor, tento me distrair me aglomerando. Vou semanalmente pra minha sentença de morte. Encho o quengo de álcool, beijo e abraço as pessoas como se não houvesse amanhã. Não abri mão de mim mesmo, apenas tenho a impressão que a vida não existe mais e como uma boa alma, mesmo que penada, saio.
Uma noite quando estava numa dessas farras eu quis ir embora e chamei um carro pelo Uber, até ai sem novidades, mas como minha mania de sempre não pode calar, iniciei uma conversa amigável com o motorista. Seu nome era João. Tão João quanto os outros. Rapaz normal, jovem com seus 32 anos, bonito, branco, cabeça raspada que, durante a conversa, sinto uma leve batida na perna quando passava a marcha. Quando estávamos chegando, pedi seu numero de telefone, lembro que estava com a bexiga cheia e entrei correndo em casa assim que ele chegou na minha porta. Pelo whatsapp verifico que ele estava online e perguntei onde ele estava. Ele estava estacionado na esquina de casa e depois de aliviado, fui até a rua onde confirmo que ele estava lá. Ainda bêbado, me atrevi de chegar ao lado do carro e perguntar se ele queria companhia até chegar uma corrida. Ele gentilmente abriu a porta pra mim e ainda ficamos um tempo no carro, mas nada de corrida, foi quando perguntei se ele queria entrar. Não vi nenhuma hesitação. Ele estaciona o carro na frente se casa e entra. Ali nasceu algo que eu não identifiquei. Mas sentia que era algo bom, mas não pra mim. Deixei os dias passarem, deixei ele ficar e ficar. Ajudei ele com que pude, comecei a ter vida de casado, mesmo sem saber o que era aquilo. Só sabia que era bom. O que nascesse seria no mínimo uma amizade. Mas as voltas que o mundo dá não são como as voltas que vc planeja, o mundo tem seus planos e você não foi incluído.
Vi a situação insustentável novamente em minha vida, foi a mesma história que repito frequentemente, aquela em que jogo meu juízo pela janela e quebro meu próprio coração. Só que dessa vez agi um pouco diferente. Sabia que se eu abrisse meu coração ele não suportaria e iria embora. E assim o fiz, e assim o fez. Uma das ultimas palavras ditas foi que seremos amigos. Mas vejo suas postagens todos os dias, me dói todos os dias, tenho raiva todos os dias. Pelo menos essa raiva ajuda a cura, fico triste mas vou me curando. Vou me curando da dor da perda dele, e consequentemente da dor maior, perder minha mãe.
Foram incontáveis as vezes que que morri em vida. Tentei todas as vezes manter o que sentia, mas nunca durou, parece uma macumba eterna. Mas como eu morri, talvez eu tenha mais sorte no reino dos mortos.

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