Enquanto escutava uma música e fumava seu cigarro numa das pausas entre um trabalho e outro Flávio tentava esconder nas feições do seu rosto, as lágrimas que estavam prestes a cair. Tudo foi muito rápido e triste. Lágrimas de pesar, pela morte do seu companheiro que perdera três dias antes. Tendo de esconder suas lágrimas de pesar pra esta sociedade hipócrita, chegou a conclusão que homossexuais não ficam viúvos. Chorar a perda do amor, para pessoas que não merecem, nem inspiram confiança no ambiente de trabalho.
No dia 23 de junho às 6:00h da manha, uma respiração agonizante acorda Flávio. Olhou pra cama onde dormia seu companheiro junto a Bruno que, carinhosamente acompanhava seu estado de saúde. Hermano estava com sua boca cheia de uma gosma grossa e branca, dedos roxos e pele arroxeada. Estava inconsciente e duro na cama onde acabara de deitar para descansar da chegada do hospital. De sobressalto ambos levantam para socorrê-lo. Enquanto Bruno vai buscar um taxi, Flavio tenta acordar Mano que não reagia a nenhum estímulo externo. Em um instante Mano volta a si e pergunta: "o que houve?" mas imediatamente volta ao seu estado anterior sendo estas as ultimas palavras que Flávio ouviu do seu amor. Bruno logo após, volta com o taxista e leva o bebezinho, que era como Painho o chamava. "O que houve?" foram as ultimas palavras que Maninho proferiu pro seu Painho antes de entrar em estado grave na UTI.
Mas essa história não começa assim. Hermano Luchezzi tinha um sonho até bastante comum. Na época em que ainda não estava se relacionando com Flávio, morava em São Paulo, e tinha uma vida como todo paulistano saído das entranhas quentes do nordeste. Era formado em Ciência da Computação e trabalhava sol a sol como uma maquina de programar. Tudo que tinha, conseguira sozinho, pois desde os 16 anos de idade tinha como objetivo, melhorar sua situação mais do que ruim. Logo que chegou a Paulicéia desvairada, vivia num lugar onde tinha que diariamente lavar todo o espaço com querosene, para que as pulgas não o comessem vivo. E assim se seguiram os dias.
Estudou bastante e trabalhou como louco. Progrediu na cidade grande, se formou e gradativamente galgou suas coisas com muito esforço. Conseguiu comprar seu apartamento no centro de São Paulo e tinha sua vidinha de pizza nos finais de semana e sexo sem emoção.
Tinha como escape, algo que não posso descrever como uma forma saudável de distração. Maninho era como a Macabéa, uma personagem de Clarice Lispéctor, só que no caso de Mano, deu certo na cidade grande. Tinha milhares de coisas, mas não era feliz. Periodicamente saia com garotos de programa que lhe satisfaziam sexualmente. Como tudo pode acontecer, inclusive a coisa ruim da vida, ele deixou com que acontecesse, por três vezes, o acidente com o látex e com a brutalidade do sexo. Pois foram as três vezes, que esse que vos fala não sabe precisamente como e quando aconteceram, mas aconteceram. Cansado com o estress da cidade e por conta da aceitação da universidade onde estudava, voltou para Recife para começar o seu mestrado.
Exatamente um ano depois da chegada na cidade conheceu Augusto. Se conheceram pela internet, num desses sites de relacionamento. Entravam sempre em contato pelo msn, sempre se falando carinhosamente, atentamente. Eram mentes que se afinavam através de uma rede infinita.
Augusto, um cara simples que tem vida sacrificada e estressada, também tinha o sonho de encontrar um amor. Tinha jornada tripla de trabalho e à noite fazia sua faculdade de Ciência da Computação que pagava sozinho com seu salário minguado.
Mano, ludicamente relatava pra Augusto que no natal de 2007, fez um pedido pra Papai Noel. Pediu-lhe um amor. Foi quando Augusto foi embrulhado para presente cósmico, e DEUS fez com que se cruzassem. Sua inocência pisada e sua miséria particular, não o deixaram ver o mau que carregava em si. Seu processo de aceitação nunca fora trabalhado. Sua racionalidade virginiana fora piorada pela educação sertaneja. Ele tinha vergonha de viver plenamente sua vida, sua sexualidade. Vivia escondido de si mesmo. Se escondera até do que portava.
Aprendeu com as pessoas com quem tinha "amizade" em São Paulo, tudo que é fútil e libidinoso. Tinha um amigo que ele chamava CD. Palavra semelhante com o que nós usamos corriqueiramente para colocarmos no som da sala-de-estar, ou no computador pessoal. Mas nesse caso, "CD" significava "Cross Dressing", nova modalidade sexual a qual o homem veste-se de mulher para sair na rua e arrumar homem. Vivia falando que convivia compessoas que so tinham interesse em conviver com "minha turma" para tomar cervejas gratuitamente. E viva nessa felicidade medíocre de finais de semana solitários, acompanhados por pizza aos domingos e passeio de bike no parque, usando suas malhas apertadas, extremamente femininas.
O primeiro contato entre Hermano e Flávio foi mágico. Após ficarem um bom tempo apenas teclando pelo msn, finalmente se encontraram alguns dias depois do revellion de 2008, logo após a chegada das pequenas férias que Flávio tirou na casa de praia de uma amiga. Marcaram às 8:00 da noite de um sábado quente. Flávio era moreno dos cabelos castanhos escuros, olhos cor de mel, 1:70 de altura, com seus 66 kg. Já Hermano era magrinho, branquelo e loiro. Tinha lindos olhos verdes e raspava completamente os poucos cabelos que lhe restara.
Flavio nao ligava realmente para beleza externa, embora fosse bonito. Não cobrava das pessoas que o redeava coisas futeis, cobrava apenas respeito.
...para que no amor de Deus, um dia eles se encontrem novamente. Em nome do Pai, do Filho, e do Espírto Santo, Amem.