Eramos eu, Hiroshi Kanji, minha esposa Nomia e nossa filha Kioku. O que se pode é apenas falar sobre o que passamos. Minha mulher é sobrevivente da bomba na guerra de 1945 e morávamos a 30 kilometros de Hiroshima, em uma aldeia ali perto. Simplesmente não imaginávamos o que estava para acontecer. Era dia claro de céu límpido, sem nuvens. Era um lindo dia. Olhei pro céu e vi um grande avião que voava muito alto. Nesse mesmo momento pensei: “- não é avião Japonês, os nossos não voam tão alto!” e tirei a atenção do céu voltando a trabalhar no meu roçado. Não consegui voltar a me concentrar no trabalho, foi como se minhas forças tivessem sido minadas por um calafrio.
Tudo que eu tinha construído ali, com a minha família, fora construído com meu esforço e o da minha amada mulher. Nossa filha nascera um ano após nos casarmos em linda e simples cerimônia. Kioku nasceu forte e saudável, nos deixando muito felizes. Inteligente, aos sete anos de idade já nos dava muito orgulho pela sua vivacidade e doçura.
No momento em que vi o avião americano, senti uma angustia inexplicável. Tentei voltar ao trabalho, forçando-me, pois era dia de muitos afazeres, mas de repente eu escuto um som oco e ensurdecedor que vinha longe de onde estávamos. Corri para a casa preocupado com minha mulher e minha filha que estavam em preparando nosso jantar. Eu e os meus poucos funcionários que estavam por perto nesse momento, corremos para o lado da casa quando subitamente vi, algo que não pude explicar. Primeiro vi meus companheiros de trabalho em forma de esqueletos, vi-lhes transparentes como um raio-x. Nós tentamos nos proteger mas não tinha como. Ao chegarmos um pouco mais perto da minha casa, minha mulher desesperada, e sem saber o que fazer nesse momento sai de casa para me chamar, deixando nossa filha dentro de casa. E foi a ultima vez que vi minha mulher enquanto vivo.
Uma onda de fogo intenso me atingiu de frente, levando-me para longe, muito longe de minha casa.
A casa sólida fora completamente destruída por essa onda e minha mulher sobreviveu por um acaso, pois no momento em que nossa casa tava sendo atingida pela onda de fogo, Deus resolveu ter piedade dela e a protegeu de modo milagroso atrás de uma arvore de tronco grosso e concavo, que tínhamos no jardim.
Minha filha que estava aflita dentro de casa, ficou presa nos escombros de madeira, do que ela era feita e nesse momento começara a pegar fogo. Alguns minutos após a onda flamejante, minha mulher desesperada corre pra casa, para ver se nossa filha estava bem, mas escutava a voz dela gritando pela mãe, falando que o quanto estava doendo aquelas madeiras em cima dela, enquanto minha mulher sofria por não poder fazer nada pela pequena, e ela, Nomia, se lamentava chorando ao ouvir o sofrimento a gritos. O dilaceramento de culpa que minha mulher sentiu, pela incapacidade de fazer algo por Kioku, sem ter coragem de morrer com ela, era inenarravel. Os gritos de Kioku enquanto estava sendo queimada viva, deveriam ser gravados, para servir de exemplo a humanidade do horror de uma guerra.
Eu, completamente queimado, tentei voltar pra casa com a força que me restara. Estava cego e me faltando um pedaço do queixo. Vaguei sem rumo pois não sei onde e caí, morrendo a poucos metros dali. Minha mulher, ainda viva, não sabia o que fazer e ficou ali, do lado dos escombros escutando nossa filha morrer, morrendo e enlouquecendo por dentro.
Os dias seguintes foram tão cruéis quanto esse que descrevo agora, através desse bondoso rapaz que me cedeu sua mente, para descrever o que vivi.
Fiquei junto a minha mulher até o dia que os anjos permitiram que eu ficasse. Ela, paralisada do choque, permaneceu lá do lado dos escombros onde estava nossa filha, agora morta, sem provisão de coisa alguma, sem água e sem comida durante três dias. Uma chuva forte, fazia com que as galerias e canaletas escoassem abundante uma lama negra e espessa que caia do céu. A sede desesperadora dos sobreviventes, que nesse momento se reuniam como zumbis sem rumo, fazia com que abrissem a boca pro céu, e a chuva negra matava, não só a sede, mas tirava o resto de alma de quem restara.
Lembro-me ainda que depois da chuva, chegou ajuda. Muitas pessoas voluntariamente, vindas de cidades circunvizinhas tentavam fazer todo o necessário para salvar aquelas almas radioativas, tentando leva-las para abrigos onde já se encontravam milhares e milhares de pessoas no mesmo estado de minha mulher. Muitos tentaram ajudar, mas os médicos eram poucos e não sabiam proceder diante das chagas radioativas. No abrigo gradativamente as pessoas contaminadas pela radiação gama, iam aparecendo-lhes feridas no corpo. Tufos de cabelos caiam ao leve toque das mãos. Hemorragias infindas em pequenos cortes, ou furos de agulha para ministrar o medicamento. E morte, muita morte ao redor. Eu via o desencarnar triste das pobres almas que estavam ali. Hoje, minha mulher está viva, mas com sequelas. Ela conseguiu sobreviver ao holocausto nuclear depois de tanto sofrimento, mas restou-lhe a deformação no rosto pelas feridas e o cancer que lhe florescera brandamente na pele.
Tudo que eu tinha construído ali, com a minha família, fora construído com meu esforço e o da minha amada mulher. Nossa filha nascera um ano após nos casarmos em linda e simples cerimônia. Kioku nasceu forte e saudável, nos deixando muito felizes. Inteligente, aos sete anos de idade já nos dava muito orgulho pela sua vivacidade e doçura.
No momento em que vi o avião americano, senti uma angustia inexplicável. Tentei voltar ao trabalho, forçando-me, pois era dia de muitos afazeres, mas de repente eu escuto um som oco e ensurdecedor que vinha longe de onde estávamos. Corri para a casa preocupado com minha mulher e minha filha que estavam em preparando nosso jantar. Eu e os meus poucos funcionários que estavam por perto nesse momento, corremos para o lado da casa quando subitamente vi, algo que não pude explicar. Primeiro vi meus companheiros de trabalho em forma de esqueletos, vi-lhes transparentes como um raio-x. Nós tentamos nos proteger mas não tinha como. Ao chegarmos um pouco mais perto da minha casa, minha mulher desesperada, e sem saber o que fazer nesse momento sai de casa para me chamar, deixando nossa filha dentro de casa. E foi a ultima vez que vi minha mulher enquanto vivo.
Uma onda de fogo intenso me atingiu de frente, levando-me para longe, muito longe de minha casa.
A casa sólida fora completamente destruída por essa onda e minha mulher sobreviveu por um acaso, pois no momento em que nossa casa tava sendo atingida pela onda de fogo, Deus resolveu ter piedade dela e a protegeu de modo milagroso atrás de uma arvore de tronco grosso e concavo, que tínhamos no jardim.
Minha filha que estava aflita dentro de casa, ficou presa nos escombros de madeira, do que ela era feita e nesse momento começara a pegar fogo. Alguns minutos após a onda flamejante, minha mulher desesperada corre pra casa, para ver se nossa filha estava bem, mas escutava a voz dela gritando pela mãe, falando que o quanto estava doendo aquelas madeiras em cima dela, enquanto minha mulher sofria por não poder fazer nada pela pequena, e ela, Nomia, se lamentava chorando ao ouvir o sofrimento a gritos. O dilaceramento de culpa que minha mulher sentiu, pela incapacidade de fazer algo por Kioku, sem ter coragem de morrer com ela, era inenarravel. Os gritos de Kioku enquanto estava sendo queimada viva, deveriam ser gravados, para servir de exemplo a humanidade do horror de uma guerra.
Eu, completamente queimado, tentei voltar pra casa com a força que me restara. Estava cego e me faltando um pedaço do queixo. Vaguei sem rumo pois não sei onde e caí, morrendo a poucos metros dali. Minha mulher, ainda viva, não sabia o que fazer e ficou ali, do lado dos escombros escutando nossa filha morrer, morrendo e enlouquecendo por dentro.
Os dias seguintes foram tão cruéis quanto esse que descrevo agora, através desse bondoso rapaz que me cedeu sua mente, para descrever o que vivi.
Fiquei junto a minha mulher até o dia que os anjos permitiram que eu ficasse. Ela, paralisada do choque, permaneceu lá do lado dos escombros onde estava nossa filha, agora morta, sem provisão de coisa alguma, sem água e sem comida durante três dias. Uma chuva forte, fazia com que as galerias e canaletas escoassem abundante uma lama negra e espessa que caia do céu. A sede desesperadora dos sobreviventes, que nesse momento se reuniam como zumbis sem rumo, fazia com que abrissem a boca pro céu, e a chuva negra matava, não só a sede, mas tirava o resto de alma de quem restara.
Lembro-me ainda que depois da chuva, chegou ajuda. Muitas pessoas voluntariamente, vindas de cidades circunvizinhas tentavam fazer todo o necessário para salvar aquelas almas radioativas, tentando leva-las para abrigos onde já se encontravam milhares e milhares de pessoas no mesmo estado de minha mulher. Muitos tentaram ajudar, mas os médicos eram poucos e não sabiam proceder diante das chagas radioativas. No abrigo gradativamente as pessoas contaminadas pela radiação gama, iam aparecendo-lhes feridas no corpo. Tufos de cabelos caiam ao leve toque das mãos. Hemorragias infindas em pequenos cortes, ou furos de agulha para ministrar o medicamento. E morte, muita morte ao redor. Eu via o desencarnar triste das pobres almas que estavam ali. Hoje, minha mulher está viva, mas com sequelas. Ela conseguiu sobreviver ao holocausto nuclear depois de tanto sofrimento, mas restou-lhe a deformação no rosto pelas feridas e o cancer que lhe florescera brandamente na pele.
Muito velha e doente, mas ainda com muita vontade de viver, anualmente participa da cerimônia que acontece em Hiroshima, cerimônia pela qual cada descendente da bomba, deposita no rio uma lanterna, simbolizando as almas dos que morreram naquele dia. Varias lanternas flutuam coloridas, levadas pela correnteza do rio que renascera sozinho. E minha amada mulher, com todo esforço vai para cerimônia que todo ano acontece nessa data. O rio transforma-se em uma bela instalação disforme, ponteado por luzes de todas as cores. Então ela, minha amada Nomia, curva-se e deposita uma lanterna na cor amarela, que era a cor que eu mais gostava.