15 de mai. de 2020

DUAS CONTAS PARA LIA

Como é fácil a destruição da mente humana, fácil com impacto indiscritivel.
Ninguém conta com a fragilidade do ser ao iniciar inocentemente uma relação, seja ela uma amizade, um amor ou um ato fraterno. A fragilidade já nasce conosco, ela se inicia na tenra infância e nos acompanha até a adolescência, onde, como descreve bem Clarice Lispector, criamos nossa máscara de guerra de vida.
Essa fragilidade após o passar dos anos, nos ajuda como seres humanos, também a identificar os sentimentos que rotulamos tão bem. A raiva, o amor, são os sentimentos que nos ajuda o caminhar assim como os sentidos, o tato, o paladar.
E é com essa introdução que quero descrever Lia que sempre foi frágil. Estudava em colégio normal, fez amizades, tinha família. Cresceu como toda garota, alimentando sonhos. Tinha o hábito diário de rezar o terço junto com a família, aproveitava a fala das pessoas, mãe e irmã que rezavam alto, para apenas balbuciar, não era preguiça, era vergonha. Adorava seus sapatos pretos que brilhavam ao sol e combinava perfeitamente com a saia azul escuro plissada. Ia sempre a pé pra escola, sempre abraçada com os livros. Esses os verdadeiros responsáveis pela sua imaginação fértil, pelas imagens que fazia em sua mente de lugares que queria conhecer, de como seria seu primeiro amor.
Aos 21 anos, sem a menor orientação dos pais, que, por super proteção, não queriam que ela namorasse tão jovem porque aparentava ingênua demais, mesmo assim, com o desenrolar da vida ela conheceu Antônio.
Estudaram na mesma época em escolas vizinhas e esporadicamente trocavam olhares ao saírem no mesmo horário. Quando isso acontecia, só eles notavam. Ela enrubecia, ele sorria no canto da boca. Todas as amigas de Lia viviam acesas pelos rapazes, mas com o passar do tempo, Lia só queria os olhares de Antônio, que era alto, tinha pouco cabelo e sempre estava com a gravata da farda torta, mas era de calor. Ele fumava, ela achava um charme, embora não soubesse qual o sentido de fumar. Era remédio? Foi quando descobriu, pelo cheiro que sua irmã tomava o mesmo medicamento. E foi justamente quando a família de Antônio teve de se mudar do bairro, eles perceberam que sentiam a falta um do outro, as escolas continuaram as mesmas, e agora se encontravam na pracinha da Rua da Aurora.
O tempo passou, a época da escola acabou, menos Lia e Antônio que ficaram noivos. Tiveram uma bela história de amor, curtiram o tempo que levou a relação.
Há, mas a vida é sempre uma surpresa, daquelas que se esgueira numa porta entreaberta, numa sombra da sala de estar. Assim como ninguém explica o amor, ninguém explica o desamor, e assim também chegou aos ouvidos de Lia a traição maléfica como se a vida processe apenas seu lado ruim. Antônio, o grande e único amor de Lia, a traiu infantilmente com a mulher que se dizia a melhor amiga. O mundo gira mas a vida capota.


Nenhum comentário:

Os mil significados de um fora

Estava no trabalho ainda terminando uma lâmina de apresentação quando o telefone toca. Ficou feliz e surpreso pois sabia de quem se tratava....