21 de mai. de 2020

O APEGO A DEUS

Dedico a Gilvanete Spinelli.

Nao, não queria me referir a ELE dessa forma, como o todo poderoso. Emudeço ao pensar que ele tem nas mãos o poder de escolher quem vive e quem morre.  Sim, parece que só temos o direito a uma existência parca, e ainda com um prazo de validade. É, ELE no poder de seu altar e nos cachos de sua longa barba branca, também ostentando seu terceiro olho flutuante, escolheu levar minha mãe. 
Ela, que diferentemente DELE, se escreve em minúsculo. Ela que nascera pra ser eterna e que, com apenas um abraço, me inundava de um amor que não posso descrever. Seu abraço tinha sabor de macarrão a carbonara com coca cola gelada. Se eu soubesse antes, jamais teria recusado a goiabada com creme de leite e o bolo de limão. Recusei por vaidade, mas que tolice a minha.
Mamãe sabia a receita de amor de forno. Era gorda de afeto, minha gordinha era recheada de amor. Sabia cada ingrediente pra vida ficar saborosa e a receita imutável era sempre com: duzentas gramas de cuidado com a chuva, trezentas gramas de calce o chinelo que o chão tá frio e uma pitada de olhe os dois lados ao atravessar. 
Ela foi a mulher mais louca que conheci. Tentou me proteger até de sua dor pois era mais forte que eu. Mamãe corrigia jornalista que escrevia errado, tinha a elegância de tratar o próximo, coisa difícil pra mim. 
Dona Gilvanete Spinelli vai estar sempre no meu coração. Quando eu morrer, ela vai estar mais em mim do que eu mesmo. Seu nome vai estar escrito com a tinta do  amor. Esse amor que, aí sim, acredito ser a dádiva divina.

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